domingo, 4 de novembro de 2012

SOB CONSELHOS DE UMA GRANDE ATRIZ

Assisti a um vídeo da Fernanda Montenegro no Youtube (*) onde, com muita sabedoria, ela aconselha o ator iniciante a desistir da carreira. Conselhos como “desista”, “não passe perto”, “saia disso”, vindos de tão respeitável senhora, orgulho do nosso país, soam inicialmente como uma sentença. A palavra “desista”, pronunciada com a autoridade de quem ela vem, ressoa forte dentro do coração inseguro de alguém que pensa que quer, mas não sabe se pode ou se vai conseguir ser o ator que deseja.
 
Mais adiante, na mesma entrevista, a grande dama do teatro brasileiro, completa: "agora se morrer porque não está fazendo isso, se adoecer, se ficar em tal desasossego que não tem nem como dormir, aí volte, mas se não passar por esse distanciamento e pela necessidade dessas tábuas aqui, não é do ramo".
 
Interessante... De lá pra cá, eu não consegui esquecer aquelas palavras. A palavra “desista” ficou martelando forte na minha cabeça. Eu não sou do ramo, tenho que procurar “a minha praia”. O teatro que na turma do básico me fazia feliz, não era agora a mesma coisa na minha turma do curso profissionalizante.
Desisti.
 
Desisti porque antes, no básico, eu me transportava cem por cento para aquele espaço e vivia com intensidade e presença momentos lindos. No profissionalizante, passei a me deparar com cobranças, com vaidades pessoais. Pessoas mais jovens se impunham diante de minha longa vivência. Eu, iniciante de teatro, embora sendo uma pessoa com mais idade, não tinha nada ou quase nada a acrescentar ao processo de aprendizagem em ebulição. Uma aprendiza jovem me disse: “Mais idade não quer dizer mais experiência”. Deu as costas pra mim e saiu sem ouvir o que eu tinha a dizer. Senti-me magoado naquele momento, mas depois percebi que diante das outras, ela era a mais verdadeira. Outras pessoas pensavam igualmente a ela, mas se escondiam em invólucros para não mostrar a postura que tinham.

O comportamento obscuro, duvidoso, não prevalece sobre a verdade por muito tempo. Se por alguns dias me senti integrado ao grupo, esse foi um sentimento “fogo de palha”, pois se apagou rapidamente. A negação de uma “atriz” em me dar um simples beijo numa cena que precisava passar uma verdade de amor do casal, não me deixou dúvidas que o rejeitado era a minha pessoa e não a cena em si, pois a mesma “atriz” abraçava e beijava colegas fora de cena. O afeto era natural, mas comigo, ainda que em cena, não havia espaço para um simples “beijo técnico” na testa. Passei a me sentir “um estranho no ninho”, “um peixe fora d’água”.

Embora o “professor” bradasse que havia espaço para sugestões ou reclamações, as vezes que procurei usá-lo não obtive ressonância no meu intento. Percebi depois de cada tentativa que eu não havia conseguido incutir as minhas ideias. Senti aquela tal situação em que a pessoa faz de conta que ouve o que você diz, mas prevalece com suas convicções iniciais como se nada de você tivesse ouvido. Cheguei a entregar ao professor um CD com cópias de músicas primitivas como sugestão para aproveitamento de alguma delas no rito inicial da peça. Para minha surpresa quinze dias depois, quando perguntei a ele se gostou, ele me respondeu que ainda não tinha ouvido. Daí em diante, sentindo descaso, eu não perguntei mais, nem ele comentou sobre o assunto. Eu esperava, pelo menos, ele dizer: Nenhuma daquelas músicas serve.
 
Dois meses antes da data prevista para a estreia da peça, o professor (diretor da peça) cobrou de mim, no ensaio, o texto literalmente decorado. Foi o estopim. Como improvisei muitas falas, ele me repreendeu na frente de todas aquelas pessoas jovens do elenco como se eu fosse um moleque. Sentindo-me humilhado, recorri a desculpas de “problemas pessoais” que não me estariam deixando concentrar em casa quando eu tentava estudar ou decorar o texto. Não adiantaria eu falar a verdade que era a falta de motivação que eu sentia e a rejeição por parte de muita gente do grupo e, por que não dizer, até mesmo por parte dele. A resposta que eu deveria ouvir, eu já imaginava qual seria: “Não é nada disso, você está pensando errado, etc. e tal”. As suas pupilas certamente não lhe negariam apoio. Importante não seria como eu estava me sentindo e sim como ele ou o grupo acharia que eu deveria me sentir. Para que, então, eu polemizar?

Problemas pessoais existem e nós os teremos a vida inteira. A dimensão de cada problema pode ser medida pela maneira como a pessoa o encara. Muitas vezes, pequenos problemas são do tipo “tempestade em copo d’água”. Outras vezes, grandes problemas são amenizados pela convicção de saber como resolvê-los. E assim, a vida segue.
 
Se a escola de teatro, inicialmente foi um ambiente onde eu me sentia inteiro e “esquecia os meus problemas do dia a dia”, nessa nova etapa passou a ser um problema a mais e, ao contrário, além da não contribuir para que eu me desligasse das preocupações pessoais, passou a ser “uma pedra no meu sapato”. Se antes eu ficava feliz em ir à escola, agora era um fardo, uma espécie de cumprimento de obrigação.
 
Diante do tratamento recebido e já comentado, optei por uma saída sem revanchismo e mantive na secretaria a mesma alegação pronunciada em sala de aula: “dificuldade em conciliar questões pessoais com as obrigações da escola” e cancelei minha matrícula. Tinha consciência que quaisquer críticas que eu fizesse não seriam acolhidas e não teriam serventia. Para que perder mais tempo, se a minha sabedoria adquirida pelo acúmulo da idade já me fazia ver qual seria “o final do filme”?
Tudo isso mexeu muito comigo. Questionei minha vocação para o teatro, já que aflorou tardiamente. Quase todos os atores trilharam desde cedo o seu caminho. A própria Fernanda Montenegro. Como que eu, depois de velho, poderia estar pensando nisso? Estaria sendo um velho ridículo como na leitura que faço no rosto de algumas pessoas que me perguntam por que estou fazendo teatro? Não adiantaria investir em carreira desse tipo porque a minha expectativa de vida não é a mesma de uma pessoa jovem? Que eu deveria fazer, então? Como aposentado, ficar em casa sem fazer nada ou voltar para o serviço burocrático? Cuidar dos filhos adolescentes até que ponto? A atenção e a proteção em excesso, tal e qual a desatenção e o abandono, podem ser prejudiciais. Enfim, um dilema: O que fazer da vida agora? É preciso estar bem comigo mesmo para estar ainda melhor com a minha família e as outras pessoas. Quanto mais feliz eu estiver, irradiarei felicidade para com quem eu interagir.
 
Assisti ao filme “Poder além da vida” (Peaceful Warrior) do diretor Victor Salva (**) e a grande mensagem que captei foi “viver presente, o presente”. Sentir o que acontece ao nosso redor. Estar presente. Quem vive o passado ou o futuro deixa de viver o presente. Isso me deu maior clareza do que ocorreu comigo na escola de teatro. Quando no básico, eu marquei presença física e mental no grupo, vivi intensamente, troquei energias. Assim me senti feliz e não ficou espaço mental para ocupação com outros pensamentos que não aqueles do estar ali. Na etapa seguinte, no terceiro mês de aulas, tive a certeza que não aconteceu empatia. Daí minha presença era quase somente física e não me sentia em sintonia com o grupo no processo.
A felicidade acontece quando se vive presente onde quer que a pessoa esteja. Viver fora do seu espaço do momento é abdicar de instantes da vida para remoer coisas do passado ou projetar ilusão futura. Viver o presente não exclui lembranças do passado, nem projeções do futuro, mas significa dizer que o foco prevalecente é o aqui e o agora.

Hoje, na minha realidade atual e voltando ao sábio conselho da grande Fernanda Montenegro, sinto inquietude e um vazio no meu coração com o temporário abandono do meu estudo de teatro. São noites seguidas em que penso e sonho me vendo em outras escolas, aprendendo com outras pessoas. Estarei sendo insistente, teimoso, “cabeça dura” ou apenas persistente?
 
Acho que tenho o dever, para comigo mesmo, de prosseguir. Buscar outros rumos, novas alternativas. Os caminhos possíveis não são poucos para a realização como ator. Importante é que a escola escolhida seja um lugar onde eu me faça presente, de corpo e alma. Assim estarei feliz e darei o melhor de mim. Não terei que esperar o “DRT” para me sentir feliz, a felicidade já se fará presente no próprio processo de formação do ator.


Fernando Asc

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(**) -  http://youtu.be/tQnkFvhSzgk      

sexta-feira, 6 de julho de 2012

“NA MORAL”

Dei uma “espiadinha” no novo programa do Pedro Bial. De modo geral, gostei da novidade. Entretanto, faço algumas observações sobre o assunto tratado no final.

O Bial repete a sua postura já conhecida no BBB (caras e bocas, tom de voz), quando defende e impõe seu ponto de vista sobre determinado assunto; nesse programa, notadamente ao defender o Alexandre Pires e sua “brincadeira” naquele clip polêmico dos gorilas.

De qualquer forma, com ou sem preconceito, creio que o Alexandre Pires, um grande artista, não foi feliz na concepção da ideia. Não que ele e seus amigos sejam racistas, acho que ninguém questiona isso. O problema tá nos olhos de quem vê. Aí é que tá o “x” da questão. Um clip é feito para o público e o público do Alexandre Pires se estende por todo o Brasil e além do Brasil. Portanto, é razoável pensar que algumas dessas pessoas tão diferentes possam entender a mensagem do clip como racista ou preconceituosa, uma vez que a mídia já divulgou atos envolvendo jogadores de futebol negros que foram chamados de gorilas ou receberam no campo bananas arremessadas da arquibancada por torcedores.

O programa foi além e trouxe versos da composição de Lamartine Babo / Irmãos Valença - “O teu cabelo não nega”:

“O teu cabelo não nega, mulata, porque és mulata na cor, mas como a cor não pega, mulata, mulata eu quero o teu amor.”

Não é do meu conhecimento que os autores dessa conhecida melodia tenham sido tachados, na época, como racistas. Eles não, a música, posteriormente, sim. Especialmente com o crescimento da consciência de igualdade dos cidadãos. Se escrita hoje, certamente, a letra seria diferente.

Não basta não ser racista ou preconceituoso, é preciso não deixar dúvidas e considerar, nas nossas atitudes, a leitura que poderá ser feita pelos concidadãos. “De bem intencionados o inferno tá cheio”, dizem.

A discussão do politicamente correto é, e sempre será, polêmica.
          

terça-feira, 12 de julho de 2011

Fera ferida

Se você já chegou até aqui, você é fera!

Que tipo de fera você é? Só você mesmo pode dizer:
v  Fera agressiva, quando nos degradamos na selva de pedra, sendo pessoa ríspida, severa ou irritável;
v  Fera competente, quando nos sentimos seguros e determinados a vencer na vida;
v  Fera ferida, quando sofremos ou nos sufocamos, ou temos o peito atingido por amor ou não.  

Já sabe que tipo de fera você é?

Não nos preocupemos com a resposta. Somos um pouco de cada fera.
Importa é que prevaleça a fera vencedora, a determinada que mesmo depois de ferida não se deixe abater.

Na vida não só somos feridos como ferimos também.
Domesticados que somos, nem sempre avaliamos o risco. Deixamo-nos enganar por conveniência. Outras vezes não: somos enganados literalmente.

Não precisamos nada esquecer, mesmo porque quanto mais tentamos esquecer estamos lembrando.
Precisamos sim, perdoar. Perdoar primeiramente a nós mesmos pelo mal que nos causamos.

Depois de nos perdoarmos, fica fácil perdoar "a quem nos tem ofendido".
Em nossa essência, nós não mudamos. Podemos mudar o nosso comportamento.

A possibilidade de mudança de comportamento é que faz com que estejamos sempre disponíveis a nos ajustar à sociedade onde optamos por viver.
Assim, vale considerar a importância do tempo e do espaço em que vivemos.

Viver no Brasil de hoje já é diferente de quem viveu no Brasil há trinta anos.
Viver no Brasil de hoje é diferente, por valores e costumes, de viver neste mesmo tempo (hoje) em culturas orientais.

A essência dos indivíduos é a mesma em qualquer lugar, aqui ou na China. O que difere sãos os valores culturais que exigem correspondentes comportamentos.

Por isso, defino felicidade como o estado de harmonia entre o comportamento da pessoa e os seus valores. A harmonia ou o conflito interior é que faz emergir a sensação de felicidade ou infelicidade em uma pessoa em qualquer parte do mundo.

"Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é".

Cada um conhece as feridas que tem. Muitas vezes, os valores superam a essência da pessoa e ela não toma consciência da dor causada por suas feridas. Por seus valores gente se anula, se mata ou mata outros até em ataques suicidas.
Fera é você conseguir ser você mesmo (em sua essência), apesar de muitas feridas e suas correspondentes cicatrizes.
Fera sim, ainda que ferida e cansada no corpo, mas forte na alma e no coração!

domingo, 10 de julho de 2011

Família: Ontem, Hoje e Sempre?

Sou caçula depois de cinco irmãs. Quando criança, ouvi de uma delas a história “O Bicho Manjaléu” do livro “Histórias de Tia Nastácia” de Monteiro Lobato. Era a história de um filho caçula que saiu a procura de suas irmãs. Ele as visitou e depois seguiu o seu destino.
Em situação diferente do caçula daquela história, eu visitava minhas irmãs. Viajei por algumas léguas na garupa de um cavalo e passei dias de férias na fazenda do marido de minha irmã mais velha. Viajei de ônibus com meus pais para outra cidade onde morava minha segunda irmã casada com um rapaz de lá. A terceira irmã morava na mesma cidade que eu e, quase todo dia, eu ia lá pra casa dela. Depois ela mudou com o marido e os filhos para outra cidade e continuei a visita-la. A quarta irmã por um tempo ficou na capital a estudar e estive lá com meus pais para visita-la. A irmã mais nova, quinta irmã, casou-se e foi morar bem distante. Pouco tempo depois ela e o marido me levaram para passar meses de férias com eles por lá.

Cresci assim, visitando minhas irmãs. Cheguei a visitar também primos, primas, tios, tias e avós. A família estava sempre presente na nossa vida. Parentes, que eu conheci primeiramente por fotos no álbum de família, em sua maioria, tive a oportunidade de visitar depois.
O tempo passou, cresci, me formei, trabalhei, casei. Hoje aposentado, meus pais se foram para a outra vida, duas de minhas irmãs também. Restam três. Das três que restam, a mais velha já passa dos oitenta anos. Outra mora sozinha, por opção, na casa que foi de minha mãe. E a mais nova aqui na mesma cidade que eu, com o marido. Meus sobrinhos e sobrinhas estão dispersos em suas próprias moradas.
Que diferença faz? Para mim, é o envelhecimento com o passar do tempo. Para os meus filhos é a redução do conceito de família estritamente ao núcleo familiar.
Meus filhos são dois: um menino e uma menina, agora adolescentes. Moram comigo e a mãe deles. Estamos em período de férias escolares e nem viajamos. Eles reclamam por ter de ficar em casa. Diferente de minha situação com minhas irmãs, eles são de idade próxima, moram juntos e não têm a opção de se visitar. As tias estão na terceira idade e não têm mais paciência e força para lidar com adolescentes, por isso não se arriscam a convidá-los para passar uns dias em suas casas. Os primos e as primas deles continuam distantes sem a aproximação e a amizade que eu tinha com meus sobrinhos. Minha família de hoje parece se resumir a quatro pessoas. Eu, minha mulher e nossos dois filhos. Os outros parentes ficaram distantes. Contatos de vez em quando por telefone, mas sem aquela presença física de antes no dia-a-dia.

Meus filhos não têm o contato frequente que eu tive quando na idade deles. Eu sempre trouxe, dentro de mim, um sentimento forte de família. Família, para mim, sempre esteve em primeiro plano. Até ao ponto de, para agradar a família, sacrificar minha individualidade. Hoje, quase sessentão, tenho meus questionamentos sobre isso.

De qualquer maneira, é a dinâmica da vida. Ontem, o conceito de família era amplo, família grande. Hoje, a família é pequena: Pai, mãe e filho (um ou dois filhos).
Prevalecerá a individualidade? Há quem defenda a vida em comunidades.  O fato é que a família de ontem, século XX, não é exatamente a mesma em seu formato de hoje, século XXI.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Quinta e Sexta-feira Santas

Hoje e amanhã são dias santificados pela Igreja Católica. Na Quinta-feira Santa, hoje, o ponto central do significado religioso é a memoração da Última Ceia ou Santa Ceia: Jesus com os Doze Apóstolos numa refeição de despedida.

Leonardo Da Vinci, no Século XV, retratou a última ceia assim.

Uma despedida que como tal já era triste e mais triste ainda porque era véspera da morte de Jesus,
o Grande Mestre. Ele sabia o que estava para acontecer. Disse para aqueles seus doze principais seguidores que um deles haveria de traí-lo. Outro, o negaria três vezes, antes de o galo cantar.
Os demais seriam coadjuvantes. O traidor passaria para a história cristã como o vilão, o mau, o ruim, quase o próprio demônio¹. O negador não teria maiores problemas porque seria o guardião da porta do Céu. Jesus havia dito o perpetuado “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja...
Dar-te-ei a chaves dos Céus”. Pedro era, ali, o mais importante depois de Jesus. Mas, mesmo assim, ele o negaria três vezes. Era o discípulo de sua maior confiança, mas o negaria. Ainda assim, seria perdoado e sua grandeza não ficaria diminuída. O traidor, não, era diferente. Teria que realizar sua malfadada missão para que se cumprissem as escrituras. Naquele cenário, o ator Judas e o ator Pedro tinham papéis equitativamente relevantes, mas o tratamento dado pela Igreja a cada um deles resultou em caminhos opostos. O valor das moedas que Judas recebeu para que fizesse com que Jesus fosse identificado pelos seus algozes, não lhe trouxe vantagens ou compensação, diante da grandiosidade da punição moral e religiosa, que estava por vir. Pedro recebeu a compreensão e o perdão. Judas a condenação. 
¹ Nas pequenas cidades do interior do nordeste brasileiro havia (ainda há?) a tradição da queima do Judas no sábado de Aleluia.
A Santa Ceia comemorada pela Igreja hoje, traz seu enfoque na figura central de Cristo. Cristo o Rei,
o Mestre, o Superstar! Entretanto, prevalece o exemplo de humildade refletido na cerimônia do
lava-pés. Glorifica o Deus feito homem hoje perpetuado, entre nós, ao se tornar pão.
A ênfase é a celebração da Eucaristia, cerimônia mor da Igreja Católica para preservação do Cristo vivo, in memoriam.

Se a Quinta-feira Santa nos traz as mencionadas reflexões, na Sexta-feira Santa as reflexões são diferentes. O sentimento é de dor, paixão, sofrimento. Recolhimento. Penitência. A imagem prevalecente é do Cristo sob o peso da cruz, sob os chicotes dos seus algozes. Senhor dos Passos. Sob o castigo dos humanos. Sob a pena de morte ao lado de dois ladrões: Um bom e um mau; um com medo do inferno (o bom) e outro sem acreditar no céu (o mau). Ao centro, um Jesus humano que pede para o Pai afastar dele aquele cálice, sobreposto pelo Jesus Eterno que se entrega e consente: “Que seja feita a Tua Vontade!”.  Senhor Morto.

A nós aqui, dois mil anos depois, continuam sendo impostos os chamados “Dogmas da Igreja”. A Igreja diz “é assim e pronto” e temos que aceitar como verdade inquestionável sua versão. Como está na Bíblia não se deve questionar, nem atribuir interpretações diferentes.

Eu gostaria de questionar para ser melhor cristão. Queria poder entender para aumentar a minha fé. Quando perguntamos para uma criança por que ela nos ama, muitas vezes respondem “porque sim”. Não interessa explicar, fundamentar. Basta acreditar! Adultos gostam de explicação.

Quando criança, eu sempre aceitei tudo que vinha da Igreja. Ela era perfeita, como perfeito é Deus. Eu tinha muito medo do inferno. Quando eu me achava “bonzinho”, cheguei a pensar até que seria bom morrer para ir direto para o Céu. Pensava que o papa recebia ordens de Deus. Ele era infalível. Depois fui crescendo e me “fuxicaram” outras coisas: falaram-me de uma “Santa Inquisição” que mandava castigar, até matar, quem não estivesse de acordo com a doutrina da Igreja no âmbito de seus domínios.  Fuxicaram tantas outras coisas, inclusive a interferência da Igreja no trabalho científico de Galileu Galilei.

Passei a me perguntar: Se a Igreja já reconhece alguns dos seus erros flagrantes de ontem por que amanhã não poderá reconhecer outros equívocos que ainda hoje continuam?

Enfim, não sou mais católico. Sou cristão. De qualquer maneira, hoje e amanhã não comerei carne, respeitarei a tradição. Estarei fazendo algum sacrifício? Não é bem assim. Comer peixe, especialmente o bacalhau, na semana santa é incomparável, parece ser mais gostoso. O vinho é bem vindo e muito bem lembrado. A ceia em família é um momento de confraternização.

A quinta e a sexta-feira santas, dias que antecedem a Páscoa, dentro ou fora da religião, podem proporcionar momentos de fé, esperança e amor. Ou não!...

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Dia de Graça

Graça, uma mulher: Maria das Graças; graça, no sentido de sorrir: fazer graça; graça no sentido de gratuidade: é de graça. Dia de todas as graças!

O papo do CarValho acontece hoje com a Maria das Graças.

- Alô Graça! É o Carvalho, tudo bem?

- Tudo bem. Que é que você tá querendo aprontar hoje?

- Aprontar? Talvez você tenha acertado: “aprontar”. É que hoje..., mesmo eu não sendo Maria, estou cheio de graça! Kkkk...  Bem, deixa o trocadilho pra lá, vou falar sério, papo do CarValho, sacou?  Criei um Blog na Internet e estou procurando não vacilar na produção dos textos. Depois você dá uma olhada lá, vou lhe passar o endereço, anote aí www......  Para a mensagem de hoje, quero sua colaboração. Vou gravar nossa conversa, depois eu transcrevo para postagem. Beleza? Gostaria que você falasse um pouco daquele assunto que conversamos outro dia - “tudo tem o seu preço, nada é de graça” – e, se quiser, conte o caso daquele seu professor que comia pão durante as aulas e você e outros colegas achavam graça.

- Pode ser. Você me ligou numa boa hora. Estava sem fazer nada, ou seja, em “estado de graça” (rss...).  Bom... Chega de papo furado, vou dizer o que acho.

- Diz, Graça!

Graça continua:

- Acho que nada é de graça, alguém sempre tem que pagar a conta de uma forma ou de outra. Tudo tem seu preço. Precisamos agir com mais consciência com relação ao que queremos ou desejamos. Brincar, sorrir, fazer "gracinhas" e mesmo “conversar abobrinhas”, pode fazer bem contra o estresse, mas precisamos saber onde termina e onde começa o nosso senso de responsabilidade, sem confundi-lo com o rotulado “bom humor”. Temos que saber separar o joio do trigo.

- Ihh... Papo sério...

- O assunto é sério, sim. Por exemplo, eleger um político palhaço por brincadeira, muitos podem até achar graça e votar sem pensar nas consequências do seu ato. Eleger um político corrupto pode ser ainda pior, sem graça o custo alto que a sociedade terá que arcar. Depois de eleitos, esses políticos acham graça de quem os elegeu. Riem da ingenuidade de seus eleitores. Tem sido assim.

- Sim, tudo bem, mas deixa esse lance de políticos pra lá. Fala de outros tipos de constrangimento.

- Ok, vamos lá. Nos mais variados ambientes, trabalho, escola, atividades esportivas e sociais, o bullying acontece sem uma maior consciência do mal que pode causar. Muitos riem de outros, quase sempre os mesmos, achando a maior graça de possíveis limitações exteriorizadas pelos atores passivos. Conforme a conveniência, os “bobos da corte” também acham graça e fazem de conta que nada de ruim está acontecendo. Mas a coisa não para por aí. Nada é de graça! Tudo tem seu preço. Coisas piores podem acontecer.

- Tá bom, Graça! O papo continua sério. Conta, então, aquela história do professor pra amenizar um pouco.

- Tá legal, Carvalho! Gravando, né? Depois não vou repetir, não! Chega! Já lhe contei essa história várias vezes. Presta atenção! Tive um professor que durante a aula metia a mão no bolso do paletó e pegava pedaços de pão e colocava na boca, um atrás do outro e, além disso, falava de boca cheia (a aula era à noite e ele vinha sem jantar). Aquela atitude junto com sua fonética de idoso, porte físico do tipo baixinho e barrigudo, completava uma situação de graça, provocando risos por parte dos alunos. Era uma situação engraçada, mas nem todos riam. Os alunos de bom senso não riam. Eu não tinha bom senso e ria durante as aulas. Até que aconteceu a primeira prova, ele me deu nota insuficiente, enquanto uma colega que copiou (“colou”) a minha prova tirou nota muito boa.

- A Graça caiu na desgraça... kkkk... Também vai ridicularizar o professor...

- Ah, Car’alho!...  Deixa eu contar, mesmo você brincando, penso que quer um relato sério. Vou continuar. Pois bem, achei estranha a avaliação do mestre, mas, para não delatar a colega, deixei passar como se nada de anormal eu tivesse percebido.  Observei que aquela colega não ria do professor na sala de aula. Até ria depois da aula, ao comentar os trejeitos do professor com colegas, mas durante as aulas respeitava a sua presença. Nisso ela era diferente de mim. Outras provas vieram e repeti os maus resultados.

- Putz! O professor deu o troco com a arma que tinha contra você!

- Pois é, não achei certo ele agir assim, mas naquela minha situação, quase reprovada, resolvi me retratar numa conversa particular com o professor, antes da prova de recuperação. Pedi-lhe desculpas, assumi a responsabilidade pelo meu mau comportamento e, assim, consegui “neutralizar” a tal “perseguição”. Eu poderia ter recorrido a outros meios, como formalizar reclamação contra o professor, mas preferi reparar o meu erro, já que esse reparo só dependia de mim. Afinal, o que era graça pra mim, na aula, para ele não era bem assim.

- Puxa, Graça! Que lição! Na Escola a gente também aprende outras coisas além do conteúdo das disciplinas.

- Verdade. Aprendi que nem a graça, da Graça, saiu de graça! (rss...) . Ai meu Deus, que sem graça!

- Valeu, Gracinha! Esta nossa conversa já tá suficiente pro texto de hoje. Beijos.




quarta-feira, 13 de abril de 2011

Sonhos de crianças perdidos pela força do acaso (Rio, 7/4/2011)

A vida é bonita, mas não é feita só de coisas belas.

Sonhos de criança – que não se perderam no tempo - podem continuar a alimentar a vida adulta. Trazem oxigenação à mente envelhecida fortalecendo o desejo de viver mais: “Eu ainda quero realizar... (isso) e/ou ... (aquilo)”. Por muitas razões esses sonhos são postergados e, em muitos casos, nunca se concretizam. Em outros, são renovados, reavaliados, reformados e acontecem. Tornam-se execução do livre arbítrio do homem ao desejar, acreditar e realizar.  

Trágico é quando os sonhos de criança são perdidos pela força do acaso. Crianças dizimadas como essas da tragédia do Realengo, Rio de Janeiro (7/4/2011). Sonhos interrompidos bruscamente pela intempérie de um jovem infeliz. Um jovem corrompido por transtornos mentais que viu na destruição de sonhos alheios a compensação do seu mal estar, do seu mal viver.

A vida nesse cenário de Realengo, não é bonita, é triste.

É triste pela morte de crianças inocentes. É triste pelo sofrimento de tantas outras crianças feridas. É triste pelo medo traumático que pode ter sucumbido o interior de todas as crianças da escola. Crianças traumatizadas, pais sofridos. Dor contínua...  como um tsunami que invade um bairro, uma cidade, um país e se propaga mundo a fora. Todos sofremos juntos, especialmente, por serem crianças com muita vida pela frente.

Então, a vida é bonita somente para as crianças porque elas não enxergam o lado triste?

A vida é bonita porque mesmo numa situação de tragédia podem surgir atitudes belas.

Em Realengo, emerge a solidariedade da população. Solidariedade que numa espécie de “tsunami do bem” se propaga por toda uma nação. Destaca-se o herói militar que desempenhando a sua função não foge ao dever de socorrer as crianças oprimidas no Colégio e interromper a sequência da chacina premeditada pelo assassino.

Os momentos de dor proporcionam o aparecimento de sentimentos e atitudes nobres. Sentimentos e atitudes que desabrocham como flores do campo, sem se esperar, simplesmente acontecem.

Mesmo com o lado triste, as crianças continuam com razão: A vida é bonita, sim!